sexta-feira, 26 de março de 2010

O caminho de Portugal e da Europa II

Com esta situação dá-se o inevitável, o aumento de impostos, a forma mais rápida do Estado receber dinheiro. No entanto, muitas vezes a forma mais fácil de receber dinheiro não é a mais aconselhável. Com aumentos de impostos há uma retracção natural dos contribuintes, que leva a um menor investimento interno, com um decréscimo da actividade económica, que se transforma numa espiral de acontecimentos nefandos para qualquer economia, levando muitas vezes os Estados, em comparação, a gastar mais em políticas sociais que aquelas que recebem em impostos líquidos.
Uma das consequências directas da quebra do investimento interno é o aumento galopante do desemprego e do aumento de situações de pobreza. Quem mais sofre neste caso concreto são as classes mais desfavorecidas, classes médias vulneráveis, com menos formação, e neste caso Portugal é um país que se encontra facilmente exposto a este tipo de crises, devido à baixa formação profissional e de escolaridade dos seus trabalhadores, essencialmente dos de mais idade, assim como as empresas são menos competitivas devido à falta de investimento em modernização de instalações e de maquinaria concorrencial com os países desenvolvidos.
Há uma falta de cultura empresarial no país. As grande maioria das empresas continuam a funcionar com uma forma de gestão também obsoleta e que não se coaduna com uma economia de tipo moderno, ou seja, aplica uma política de baixos salários, a aquisição, ou manutenção, de maquinaria arcaica, completamente ultrapassada, desfasada da realidade dos tempos modernos. A contínua aposta em sectores que não são rentáveis, em produtos de baixa qualidade, ou seja, em competição com mercados asiáticos com os quais não conseguimos concorrer, devido aos salários ainda mais baixos que os nossos e à sobrecarga de horários de trabalho diários que não são compatíveis com as sociedades modernas. Esses países só conseguem esses itens devido às suas políticas internas, grandes situações de pobreza da sua população, excedente de mão-de-obra disponível e regimes totalitários, ou muito próximos do totalitarismo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O caminho de Portugal e da Europa I

Recentemente estalou uma crise económica e financeira de graves proporções. Apesar de muitos apregoarem que ela chegou ao fim, o certo é que todos os dias as pessoas sentem que a crise não passou, que se instalou por alguns anos, e, o mais grave, levará muito tempo, talvez uma geração, em que os contribuintes, nomeadamente a classe média, vão pagar as consequências desta maleita criada pela ganância dos especuladores bolsistas e imobiliários.
O que no fundo aconteceu, até para que se perceba e não se voltem a cometer os mesmos erros, apesar do caminho especulativo continuar, foi que se criou um sistema idêntico ao jogo do monopólio, onde as pessoas jogavam com dinheiro que não existia. O dinheiro vivente em todo o planeta não cobria uma décima parte dos valores que circulavam, as fortunas que se acumulavam eram fictícias e um dia teria de acontecer o inevitável. As empresas e os governos entraram nessa espiral especulativa, investiram dinheiro dos contribuintes e dos accionistas, alguns até dos clientes, em fundos de duvidosa garantia.
Empresas houve que praticamente deixaram de produzir, existiam unicamente para especulação em bolsa, investimentos em papel de alta rentabilização e de risco.
Muitos governos, devido aos mesmos investimentos, entraram em colapso e ficaram muito perto da bancarrota. Alguns acabaram por mascarar a sua dívida pública, de forma a parecer aos olhos dos contribuintes, do Fundo Monetário Internacional, da União Europeia e da OCDE, como países económica e financeiramente seguros. O certo é que esta situação não se podia manter indefinidamente e um dia, se não houvesse um controle das contas públicas, acabaria por detonar-se uma situação já por si explosiva, com consequências graves para os contribuintes, nomeadamente para as classes desfavorecidas e as classes médias, aquelas que acabam sempre por ser os contribuintes líquidos e o suporte dos Estados, até porque são a maioria da população.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Cartas de amor

Por incrível que pareça nunca escrevi cartas de amor até ao dia que me pediram uma para fazer parte de uma antologia de epístolas amorosas. Meia século depois de ter nascido dedico umas linhas a Angélica, personagem nem bonita, nem feia, nem amorosa, nem... nada, simplesmente porque não existe. Não é a mulher com que todos os homens sonham, mas pode ser. Só a vi uma vez em sonhos pérfidios quando estava acordado, ou seja, em lucubrações de escrita. Sinceramente não me deixou saudades e escrever cartas de amor também não. Sou mais terra-a-terra, gosto de falar olhos nos olhos, perscrutar os sentimentos nas espressões faciais da minha interlocutora, se possível, finalizar com um beijo, a selar todas as palavras e a prometer paixão demente.
Todas as cartas de amor são rídiculas, escreveu um dia Fernando Pessoa, é verdade, mas rídiculo também é amar, porque quem ama feio bonito lhe parece, diz o povo, ou seja, amar é deixar de ver a realidade em relação à pessoa amada. Então só nos resta seguir os sentimentos, às vezes duros e sem correspondência, levando à loucura e à intoxicação dos sentidos. Quando somos correspondidos é o idílio, a maior quimera da vida.
Mas é tão bom amar, apesar de continuar a não gostar de escrever cartas de amor.