segunda-feira, 1 de março de 2010

Cartas de amor

Por incrível que pareça nunca escrevi cartas de amor até ao dia que me pediram uma para fazer parte de uma antologia de epístolas amorosas. Meia século depois de ter nascido dedico umas linhas a Angélica, personagem nem bonita, nem feia, nem amorosa, nem... nada, simplesmente porque não existe. Não é a mulher com que todos os homens sonham, mas pode ser. Só a vi uma vez em sonhos pérfidios quando estava acordado, ou seja, em lucubrações de escrita. Sinceramente não me deixou saudades e escrever cartas de amor também não. Sou mais terra-a-terra, gosto de falar olhos nos olhos, perscrutar os sentimentos nas espressões faciais da minha interlocutora, se possível, finalizar com um beijo, a selar todas as palavras e a prometer paixão demente.
Todas as cartas de amor são rídiculas, escreveu um dia Fernando Pessoa, é verdade, mas rídiculo também é amar, porque quem ama feio bonito lhe parece, diz o povo, ou seja, amar é deixar de ver a realidade em relação à pessoa amada. Então só nos resta seguir os sentimentos, às vezes duros e sem correspondência, levando à loucura e à intoxicação dos sentidos. Quando somos correspondidos é o idílio, a maior quimera da vida.
Mas é tão bom amar, apesar de continuar a não gostar de escrever cartas de amor.

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